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O “não gostei”, os combinados, a agressividade – a construção da moralidade

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    Vivendo e aprendendo
  • 31 de mai.
  • 10 min de leitura

por Lúcia Helena Cavasin Zabotto Pulino

Professora do Instituto de Psicologia da UnB e ex-coordenadora da Vivendo e Aprendendo


O que se espera de um adulto bem-educado é que ele aja segundo princípios: que não minta, não roube, não lese o outro, não burle a lei, não porque há alguém vendo ou sabendo, mas porque ele respeita determinados princípios, que construiu ao longo de sua vida, em contato com as outras pessoas. Que ele consiga se posicionar de modo razoável em relação a questões cruciais, como a pena de morte ou a igualdade de direitos entre as pessoas e o respeito à diferença de valores culturais ou religiosos. 


Como uma pessoa chega a este grau de moralidade, chamada de pós-convencional (mesmo que a convenção no grupo permita uma ação, se a pessoa julgar incorreta, ela não a pratica)? Este tipo de moralidade é construída ao longo da vida da pessoa, desde seu nascimento, na sua relação com as outras pessoas. 



O bebê bem pequeno, vive em uma condição de anomia (não regra ou lei) e, gradativamente, vão entrando numa relação de heteronomia com suas famílias, educadores e educadoras, adultos parentes ou próximos: vive segundo as regras ou leis (nomos) do outro (hetero). As famílias, pessoas por quem ele desenvolve o sentimento de respeito (amor e temor), já que eles são os que lhe dão afeto e limite, são os primeiros detentores da lei, para a criança. Aí se inicia a construção da moralidade, pelas primeiras interdições que se dão no seio da família. A criança vai percebendo e tendo explicitado que não pode satisfazer seus desejos imediatamente, vai aprendendo a lidar com o adiamento da satisfação ou a negociar com as famílias. É um processo que se dá numa situação de proteção; com as famílias; que cuidam, dão afeto a criança. 


Na medida em que a criança vai crescendo, introduzindo-se no mundo social da linguagem e, portanto, conhecendo os sentimentos do adulto e revelando os seus, conseguindo narrar situações passadas e projetar futuras, ela vai conseguindo fazer essa troca com mais facilidade. Ela compreende melhor o “Agora não, só depois do almoço” (para os doces), ou o “Não coloque o dedo na tomada, porque dá choque”, já que pode recorrer a experiências e tem uma história de confiança construída em relação às famílias. 


É o lugar (simbólico) das famílias, da autoridade, que os educadores e educadoras vão ocupar também. As crianças, quando chegam à escola, têm uma história de construção no limite, que vai se alargar e se tornar, talvez mais complexo na escola, já que as educadoras e educadores mudam, há muitas crianças na turma e o adiamento da satisfação do desejo é mais evidente e necessário. 


Mas, tanto na família, como na escola, como nos outros ambientes de socialização, o NÃO é fundante da identidade da criança enquanto pessoa e sujeito de suas ações. Ela vai, desde pequena, conhecendo o que não pode ser feito e, de algum modo, responsabilizando-se por não respeitar a regra. 


Como a criança constrói sua moralidade numa região afetiva que tem uma estrutura racional, ou seja, com alguém que lhe diz ou mostra o que não pode ser feito e porque, e como ela vive e compreende muito o mundo de sua própria experiência, aqui na Vivendo Aprendendo, começamos, no Ciclo 1, dizendo o “não gostei” quando ela faz algo inadequado e, a partir daí, vamos construindo regras: aqui no Ciclo 1 ninguém pode bater, morder, tomar o brinquedo do colega..., que são os combinados do Ciclo 1. 


Não dizemos “Não pode”, ou “É feio”, porque é muito abstrato e impessoal o primeiro e o segundo avalia esteticamente uma questão ética. O “não gostei” é o “não gostei disso que você fez”, e é acompanhado de uma rápida explicação e proposta de resolução: “Aqui no ciclo 1 não é para bater, eu não quero, ele não gostou”. Ele está com o brinquedo. (Perguntamos se o outro quer dar o brinquedo para o primeiro. Senão quiser, respeitamos e sugerimos “Depois você dá, tá? Depois, que ele acabar de brincar, você vai brincar, tá?”). O professor funciona como um alter ego, tomando atitudes, argumentando, para que a criança vá internalizando formas de compreender e resolver os conflitos. As crianças vão assumindo essa maneira de enfrentar os conflitos e, logo, ouve-se os “Não dotei!” durante vários momentos do dia. 


Temos o cuidado de elogiar as ações das crianças o tempo todo, valorizar o fato de estarem dispostas a trabalhar, rir com elas, mostrar nossa satisfação também. E de não tomar os conflitos como questões pessoais, que nos ofendam, e sim como parte do processo das crianças. Mais tarde, as crianças já vão se tornando capazes de se colocarem no lugar do outro e, então, depois da queixa de quem apanha, por exemplo, sugerimos: “Diga que vocês não gostaram.” E reforçamos “Eu não gostei, também. Não quero que você faça isso. Alguém já bateu em você? Doeu? Então: nele também dói...” 


Esse processo vai se sofisticando, sem perder a objetividade (e a ternura), cuidando para que não fiquemos fazendo sermão. Assim, diante dos conflitos cotidianos, chamamos as duas ou mais crianças, perguntamos o que aconteceu e falamos para elas que não gostamos e, para cada uma, sugerimos qual a outra maneira de resolver a questão. Sim, porque, geralmente os dois tem razões para entrar em conflito, os dois precisam de orientação. 


Primeira criança: Ele me xingou! 

Adulto: Você a xingou? Por que fez isso? 

Segunda criança: Porque ela fica mexendo em mim, pondo a mão, e eu não gosto!  Adulto: Você deve conseguir dizer isso para ela, sem precisar xingar. 

Adulto para primeira criança: Viu? Ele xingou você porque não gosta que você fique mexendo nele. Brinque com ele de outra maneira, né? Aqui na Vivendo, precisamos combinar antes como queremos brincar. E conversar direito. 


Bem, mas isso adianta? Depende do que queremos. Se eliminar outras ocorrências, definitivamente, não. Se mediar as relações, de modo a permitir que a criança vá aprendendo formas mais aceitas de se relacionar como o outro, de colocar suas ideias e satisfazer seus desejos, sim. E cada criança tem seu ritmo para internalizar essas formas sofisticadas de relacionamento. Afinal, são séculos de construção... 


Quando o grupo já está mais organizado, em determinadas questões é possível fazer-se um fórum de discussão, ou, às vezes, uma assembleia. Há ocasiões em que é possível fazer-se uma reunião para prevenir grandes conflitos. Um exemplo: Dia de passeio de bicicleta e algumas crianças não trouxeram as suas. As educadoras e os educadores previram possíveis conflitos, já que algumas crianças se queixavam e outras já anunciavam sua não disposição para emprestar suas bicicletas. Então, fizeram uma reunião com todos, pedindo sugestões de como resolver a questão. É claro que com a mediação dos educadores e educadoras, a turma chegou a um arranjo tal, que uma criança seria a dona do posto de gasolina, outra do lava carros e outra, o guarda de trânsito. Resultado: uma linda brincadeira organizada, com papéis diferenciados e muita gente disposta a emprestar as bicicletas e assumir outros papéis que não o de ciclistas. 


Normalmente, antes das brincadeiras, combinamos as regras, os papéis, os adultos pensando e prevendo, sem tirar a espontaneidade das crianças. Assim, também, vocês, famílias, quando seus filhos insistem em ir para a casa dos colegas todos os dias na saída (o que normalmente causa conflito), ou quando querem trazer toda e qualquer coisa para a escola como novidade, ou quando querem comprar tudo o que veem, podem agir criativamente e fazer um calendário com os dias em que a criança pode visitar os amigos e combinar previamente com as famílias, ou fazer com eles uma relação dos brinquedos que podem vir e os que não podem para a escola, ou contar para eles a história de quando vocês eram pequenos e queriam comprar tudo e suas famílias (avós das crianças) diziam que não podiam, ou brincar de imaginar um (a) menino (a) quem comprou muuuuuuita coisa e não tinha onde colocar tudo; ou desenhar as situações com as crianças. 


Essas são formas de lidar com situações concretas de maneira simbólica e lúdica, o que, além de tornar mais humana a relação famílias/filhos, aproximando-os, possibilita que as crianças façam exercícios de representação ou simbolização de suas vivências, pensando possíveis alternativas. 


Negar, então limitar, não é eliminar possibilidades ou negar a criança, mas aproximar-se dela, dando-lhe, junto com o não ou o limite, o possível e a indicação de um caminho e a solidariedade. Ajudá-la a aprender a lidar com a dor e aceitar ajuda para este difícil e maravilhoso processo de crescer (como diz o Miguel, pai da Marcela do Ciclo 4, “enfrentar a angústia de deixar de ser criança.”). 


E o não gostei”, é adequado, suficiente? Algumas crianças não obedecem aos combinados (cada turma vai construindo os seus). 


Bem, acreditamos que este é um processo, às vezes até longo, mas o mais razoável, de se construir a moralidade, já que a criança, participando da construção dos combinados, passa a querer fazê-lo valer e se sinta cada vez mais responsável pelos seus atos e participante de uma comunidade, que se baseia na justiça. 


O sistema ético-moral da Vivendo pode ser pensado como sustendo nos princípios filosóficos que nortearam a fundação da Associação e sustentam nossas escolhas teóricopráticas no cotidiano, as decisões tomadas em Assembleia Geral, a tradução disso em nossa prática diária, que suscita novos pontos críticos, as discussões, a organização administrativo-pedagógica da escola e os combinados nas turmas. 


Todas essas instâncias de objetivação da ética devem buscar se harmonizar, contando com possíveis contradições e conflitos e com a disposição de todos para conversarmos. Por trás do não gostei”, há ideias, princípios filosóficos, a teoria de Piaget, com sua compreensão da formação do juízo moral; a de Freud, com a noção de formação do ego ideal e de transferência, a de Wallon, que propõe uma educação que busque o equilíbrio entre o desenvolvimento da cognição e da emoção no processo de formação da personalidade da criança, que se dá na relação com o outro e em oposição a este; a de Vygotsky, que considera o professor um mediador, que atua junto às crianças, possibilitando que elas internalizem formas de relacionamento social e conceitos construídos e consolidados na história de nossa cultura e que valoriza o trabalho em grupo, já que cada criança ajuda a outra a construir seu conhecimento. 


O “não gostei é, enfim, a síntese entre uma relação afetiva (o outro expõe o que sentiu “abre-se afetivamente para a criança, como sugere Miguel, pai da Marcela) e uma compreensão racional da realidade (já que vai dando elementos para uma argumentação do porque não é desejado aquilo a que se refere), o que resulta na dimensão moral. E, cada vez mais, na medida em que a criança se desenvolve, vai se tornando nós não gostamos, na Vivendo nós combinamos não fazer isso, nós combinamos que não pode. 


Para nós, adultos, é importante dizer ao outro que não gostamos e que gostamos, mas, como já temos nossos princípios, e o sentimento está implícito neles, muitas vezes é bom explicitarmos para nós e para o outro o que “recheia” nossas ideias (sensações, experiências, valores, sentimentos, utopias...). 


Essas teorias que seguimos são chamadas de psicogêneses, porque resgatam a origem e o desenvolvimento histórico da formação da pessoa, em seus aspectos afetivo, cognitivo e social. Compreendem o desenvolvimento da inteligência, da afetividade, da sociabilidade, como um processo histórico-cultural de construção, a partir de sua origem, mostrando a relação entre seus vários momentos, e propondo uma estrutura compreensiva. Guardando as devidas especificidades, elas valorizam o momento da infância como fundante do processo. A família, a escola, a rotina, a alimentação, xixi/cocô, a organização, a limpeza, a agenda. Em nossa escola, é fundamental que a família e a escola “conversem”, especialmente porque aqui se tem pensado e praticado a educação de um modo não muito comum e que requer o trabalho conjunto. Já houve época em que as famílias reformavam, pintavam trabalhavam na escola em suas horas de folga. Hoje, as comissões têm mais o caráter de coordenação, mas ainda fazemos, nem que seja como rituais ou festas, atividades que recuperem essa dimensão da associação. 


Achamos importante que as famílias conversem com as educadoras e educadores, e com coordenação psicopedagógica no dia-a-dia, por isso não adotamos agendas. Os bilhetes, muitas vezes ilustrados ou escritos pelas crianças, também incrementam a conversa. Os representantes de turma são importantes mediadores casa/escola. 


As famílias com suas crianças se reunirem em outros horários para lazer, na escola ou em outros lugares é uma prática tradicional na Vivendo. As famílias dos Ciclos II e IV da tarde estão se organizando para isso. 


A alimentação é algo com que nos preocupamos: cada professor tem o seu projeto de alimentação, que envolve o trabalho com as crianças e as famílias. A preocupação com o que comemos, com o como fazer comida, a experimentação, a apreciação estética dos alimentos e da mesa posta, o esperar o outro permitir (ou colocar na cesta o que trouxe) para comer seu lanche, o prazer de estarmos juntos na hora da alimentação, muitas vezes com a presença das famílias. Depois que Flávia, nutricionista, tia de Anita do Ciclo II da tarde, veio à sala e no Chá de Livros falar sobre alimentação, resolvemos abrir um banco de textos e receitas na secretaria. 


As famílias do Ciclo I da manhã e da tarde estão super atuantes, trocando sugestões de lanches e culinária, fazendo até chá na sala com famílias, crianças e educadoras, para ler histórias. Conversamos sobre a hora de alimentação, de dormir, o fazer xixi/cocô: como processos fisiológicos, que alicerçam o desenvolvimento do psiquismo, e, sendo atividades que ganham significado simbólico para a criança por meio da mediação das famílias/educadoras, merecem que conheçamos suas implicações para o desenvolvimento. 


Assim como na escola temos uma rotina de atividades, que alterna momentos de concentração e expansão, ajuda a criança a construir as noções de espaço e tempo e lhe proporciona a segurança de saber o tipo de atividade que vai fazer, em casa. A criança deve ter uma rotina (talvez menos demarcada), de modo que se sinta participando, sabendo a hora de assistir TV, de brincar sozinha, de descer, de tomar banho, de dormir... 


Quanto a organização da escola e das salas, temos muito que melhorar: o espaço está sempre sendo redefinido, as salas estão mais confortáveis a cada ano, mas podemos melhorar os armários e estantes. Temos recebido doações de associados, mas poderíamos pensar em formas de otimizar isso. As famílias do Ciclo V da tarde se propuseram a pensar nisso e ajudar no que for possível. Aqui e em casa precisamos conversar com a criança sobre como cuidar de suas coisas e respeitar as dos colegas, como se colocar à mesa, como fazer a higiene pessoal, tudo com nossa participação efetiva. Sempre fazendo combinados. Nós as educamos para serem autônomas, elas vão conquistando autonomia em pequenas coisas e ganhando confiança, com nossa colaboração, para enfrentar desafios. 


A valorização do trabalho manual, de arrumar as coisas depois de terminada a tarefa, do enxugar o chão molhado, a tinta na mesa, fazer comida, colocar o lixo nas lixeiras específicas, além de ajudar na construção de noções de higiene, saúde e organização, aprimora o raciocínio da criança, leva-a a fazer discriminações a classificar objetos, a compreender o sentido da cooperação, além de lhe dar uma ideia de como as coisas são feitas (já que, em casa, muitas vezes a mesa se põe e é tirada num passe de mágica, a comida surge no fogão ou na mesa). Também, sem dúvida, desenvolve na criança o respeito pelas pessoas que fazem essas tarefas e cujo trabalho é comumente desvalorizado na nossa sociedade.


* Texto Publicado no Pequenas Notas - periódico da Associação Pró Educação Vivendo e Aprendendo, em 2000.

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